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Haverá quem entenda que só excêntricos como Monsenhor Simas e suas respeitabilíssimas manas se proporiam o ousio de inaugurar, não tanto agora o prestimoso monumento que os ditos ergueram no quintal, mas – e logo nos tempos que correm! – uma editora...
Donde, analogicamente, Gente Singular designativo roubado ao conto de Manuel Teixeira-Gomes, esse prosador de eleição que nele plasmou um quadro assaz cruel de um certo Algarve que, na sua tacanhez provinciana, mais de um século volvido teima em persistir. Verdade se diga, porém, que entre os dois cometimentos – a privada de ontem e a editora de hoje – as similitudes se quedam no intuito não comercial, desinteressado e altruísta que a ambos presidiu. Ao invés das singulares personagens de Teixeira-Gomes, que justamente granjearam o apreço de seus conterrâneos ao dotarem a cidade de tão portentoso melhoramento, nós outros, singulares também embora, pretendemos tão-só e mais modestamente fundar uma editora de livros em que memória histórica, reflexão ensaística e criação verbal eclecticamente se entrecruzem para dar conta da cultura viva do Algarve.
Porque o referente – do conto “Gente Singular” e da editora Gente Singular – é o Algarve, este Algarve cuja denominação é já de per si estranha e singularíssima. Pois se etimologicamente significa “O Ocidente”, quando geograficamente se situa a Sul! Atilados andaram os conquistadores afonsinos que, descendo do Norte, lhe respeitaram todavia o nome que de antanho lhe fora posto pelos que navegavam a partir do Oriente (outros conquistadores mais alarvizados – oh, que gente singular! – é que viriam recentemente dobrar-lhe o “l”). A singularidade do Algarve manifesta-se também nesta abertura aos ventos de todos os quadrantes e nas feições ímpares – paisagísticas e humanas – que multissecularmente o individualizaram, malgrado os tratos a que tem sido e continua a ser sujeito pela mais porfiada barbárie. Gente Singular é, portanto, uma editora algarvia e regional – mas não regionalista, epíteto que quadra melhor aos Monsenhores Simas dos nossos dias.
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